A peça Os Caranguejos de Istambul, do Teatro da Terra, fala-nos de «Artur e Vítor, nascidos em África e filhos de colonos, ambos jovens revolucionários aquando da descolonização e que resolveram embarcar no espírito do tempo, romper com as famílias e ficar no país novo, contribuindo para a mudança do mundo. Tarefa a que se entregaram durante décadas, tendo constituído famílias mestiças. Agora, estão na idade madura, o cenário geopolítico mudou completamente as perspetivas e grande parte dos frutos que caíram da árvore apodreceram no chão. Na idade do balanço, receiam concluir que o mundo é que os mudou e que a globalização desmantelou todos os valores em que acreditavam. Mas quem traiu o quê, se as ilusões eram de todos? Resolvem então encenar uma peça que adapte Gil Vicente à realidade política que os envolve».
Nesta história, «a morte de um rapper, que era um ídolo popular e um cantor de intervenção, precipita tudo. A desnecessária violência da polícia contra a multidão que se amontoava no velório do músico repercute-se no seio das famílias de Vítor e Artur. O filho de Artur, jovem de sangue na guelra que luta pela justiça, embrulha-se na briga e vê-se metido num sarilho de coloração política. E as suas mulheres resolvem abandonar os seus países de origem e mudar de continente. Chegou de novo a hora de Vítor e Artur terem de decidir a que lugar pertencem. E regressar ao quê, se os vínculos que os fizeram acreditar numa ideia de futuro mais equitativa parecem ter-se esfumado? Fazem a peça de Gil Vicente ou abandonam tudo e o trabalho de uma vida?».
O espetáculo é produzido pelo dramaturgo António Cabrita e encenado por Maria João Luís. Cinquenta anos depois do 25 de Abril de 1974, esta é uma comédia social que retrata o corpo-a-corpo de uma geração com as suas expectativas políticas.