André Braga & Cláudia Figueiredo e o coreógrafo moçambicano Panaibra Canda colaboraram na criação deste OU, espetáculo nascido de uma vontade de criação em torno de uma paisagem concreta: Inhambane, cidade do Sul de Moçambique.
Nesta terra de memórias familiares e coloniais, que Vasco da Gama batizou de «Terra de Boa Gente», o presente ainda ecoa reverberações do passado, quando daqui foram levadas milhares de pessoas escravizadas.
O espetáculo bebe da mitologia de Drexciya, que nos fala da existência de um povo subaquático descendente de escravos africanos atirados à água durante uma travessia oceânica, mas também das palavras de uma curandeira de Inhambane, testemunha de mistérios e segredos antigos guardados por espíritos que habitam o mar. Desta forma, o espetáculo é espelho de muitos encontros, entre dois corpos, nas suas forças, abstrações, histórias e vontades, mas também entre o mar e a terra, o visível e o invisível, o ancestral e o contemporâneo, o etéreo e o terreno.
Dança, som, vídeo e palavra desenham esta geografia sensorial que convida à escuta e à imaginação e confere a OU a linguagem fortemente transdisciplinar que o define. Uma linguagem que desenha o convite para pensar a história através dos olhos da ficção, da fabulação e da presença fantasmagórica, a partir das quais se desenham as formas ainda possíveis da justiça e da memória.
Um espetáculo em que o corpo não se expressa somente através da dança, mas antes fala, recorda, resiste e sonha, num ritual que evoca antigos fantasmas e nos convoca para um pensamento desassombrado sobre as maiores injustiças do nosso mundo.
